17/05/2009

O lado de cá do espelho

Ontem, no início da madrugada, coloquei um tweet pedindo sugestão para um conto. A queridíssima Ana Enne deu uma idéia e, a partir dela, escrevi o texto que se segue. Valeu pelo desafio e pelo exercício, além de me deixar um pouco mais relaxado. Portanto, espero que gostem.


O lado de cá do espelho

Ele abriu a porta com certa ansiedade, largou a sacola de pães sobre a mesa e correu para a janela. De lá, ainda a via junto ao poste, toda de preto, olhando para o celular que permanecia em silêncio. Abriu bem a cortina e, para que pudesse vê-la por inteiro, apoiou-se à balaustrada. Um homem, pensou. Um homem a havia feito se vestir daquela forma, como nunca antes. Ela que sempre se mostrou tão cotidiana e direita, os vestidos largos e bem-comportados, os cabelos irregulares, em coque. Com alguma sandália rasteira para ir ao mercado, a pele áspera e opaca, os óculos grossos. Sempre os mesmos. Agora estava ali, junto ao poste, esperando um homem que – sabe-se lá como! – a havia convencido de que podia vestir-se daquele modo. Pouca vergonha. Uma mulher dessa idade. Ele sabia da vida dela, como os demais, da rua: só um pouco. Sabia que os filhos estavam fora, estudando; que o marido vivia com outra, e tinha outros filhos (não sabia quantos); e sabia que ela vivia da pensão dele, mais nada. E, até então, nunca teve queixas de sua postura: ela sempre fora correta e contrita, cumprimentava a todos, mas sem muita intimidade. Como uma mãe de família. Mas agora, estava ali, de preto, junto ao poste, sob uma luz que realçava o volume de seus seios, firmes e proeminentes, com os cabelos soltos e ondulados, uma maquiagem rosa sobre a pele branca. Que diria a finada, se perguntou ele. Começou então a imaginar o rumo de sua rua (onde vivia desde sempre), agora que sabia o tipo de pessoas que ali moravam. Vai virar um prostíbulo. Pensou logo em telefonar para o compadre Rui, da outra esquina, para partilhar sua indignação. Mas não conseguia deixar de observá-la. Ela já estava ali há quase meia hora. Digitava agora algum número no celular, colocava o aparelho no ouvido, esperava, e nada. O vestido preto ia só até acima dos joelhos. As sandálias, de salto alto, não impunham dificuldade. Ela se impacientava. Cruzava os braços com mais força, vez ou outra esfregando a pele para afastar o frio que a noite trouxera. Pouca vergonha. Uma mulher tem que se dar o respeito. Ele quase balbuciava as palavras, tamanha a raiva. Teve que viver tudo para ver o mundo se acabar desse jeito. E tudo isso assim, no meio da rua, junto ao poste. Parece que não se enxerga, ora! E como por um acaso, ela virou-se e o viu na janela. Olharam-se por alguns segundos. Ele se assustou, mas não deixou de fixá-la em silêncio. Ela então compreendeu toda a cena. Virou-se, sem pressa, e foi em direção ao portão de casa. Antes de entrar, ele a viu amarrando o cabelo, com uma presilha. Em seguida, ouviu apenas o barulho do portão dela se fechando. Ele se manteve imóvel, sob a balaustrada, acalmando a respiração que aos poucos arrefecia. Viu, ao longe, um carro velho e ruidoso se aproximando. Acompanhou o veículo atravessar toda a extensão da rua numa passada lenta, e seguir direto, sem paradas. Olhou o céu que ficava pesado. Vem chuva, afinal. Sentiu mais forte o frio que entrava com ímpeto. Afastou-se então, fechando a janela e trancando os ferrolhos. Estava em paz. Fora um gato que miava ao longe, a rua estava calma, em sossego. Ele podia dormir tranqüilo.

02/03/2009

Como se comportar em situações óbvias

Episódio de hoje: Trânsito
Embora o semáforo estivesse verde, a moça não podia cruzá-lo, porque, se se adiantasse o mínimo que fosse, trancaria o cruzamento. Ela então para (isso mesmo, sem o acento diferencial!) antes da faixa de pedestre e começa a ouvir aquela avalanche de buzinas, cada uma com seu timbre: o engasgado do Chevette, o roufenho do Gol, o histriônico do Palio, o encorpado do Civic... nenhum deles, porém, se compara ao do ônibus parado logo atrás dela. O motorista se impacienta, dá seta para a esquerda tentando ultrapassá-la, mas a imobilidade do trânsito não permite saída: o semáforo está verde, porém estão todos parados. Até que a porta do ônibus se abre e parece que os passageiros, cansados daquela demora, resolveram ir a pé. No entanto, apenas um deles desce (um rapaz forte e cansado, nitidamente ansioso pra chegar em casa) e vai até o carro da moça. Bate na janela, ela se assusta, mas percebe que o rapaz quer apenas lhe dizer algo. Abaixa pois o vidro, ao que ele lhe pergunta: “Como é, moça? Eu quero ir pra casa!”. E ela responde: “Por quê? Quer uma carona?”.

31/01/2009

Como se comportar em situações óbvias

Episódio de hoje: Disque-pizza

Atendente: Boa noite! Pizza's Show, em que posso ajudá-lo?
Cliente: Boa noite. Tem picanha?
Atendente: Não, senhor. Não temos picanha.
Cliente: E o que é que tem?
Atendente: Temos pizzas, calzones, nhoques, lasanhas...
Cliente: E picanha?
Atendente: Não, senhor. Sem picanha.
Cliente: Hum... e qual a especialidade da casa, amigo?
Atendente: Nossa especialidade é a pizza...
Cliente: De picanha?
Atendente: Não, senhor. Não temos pizza de picanha.
Cliente: E tem pizza de que?
Atendente: Temos todos os sabores.
Cliente: Menos picanha.
Atendente: Sim, senhor. Menos picanha.
Cliente: Assim é difícil escolher.
Atendente: ...
Cliente: Será que o amigo pode sugerir alguma coisa?
Atendente: As pizzas que mais saem são as de calabresa, frango com catupiry, quatro queijos...
Cliente (interrompendo): Aposto que se vocês fizessem de picanha ia vender aos montes.
Atendente: Iremos anotar a sua sugestão, senhor.
Cliente: Então vai dar pra sair a de picanha?
Atendente: Não, senhor, não agora. Repassaremos depois sua sugestão ao gerente da casa e é ele quem providencia isso.
Cliente: Então será que amanhã já tem de picanha?
Atendente: Não, senhor, essas coisas demoram. E, além disso, nem sei se o gerente vai querer fazer pizza de picanha, ora.
Cliente: Mas, por quê?
Atendente: Primeiramente, porque picanha não combina com pizza.
Cliente: Pois eu adoro.
Atendente: Senhor, se for querer alguma coisa além de picanha, diga, senão vou ter desligar.
Cliente: Sim, sim... Huuum... Me vê então uma dessa de calabresa.
Atendente: Pequena, média ou grande?
Cliente: Se fosse de picanha, eu pediria uma grande. Mas, sendo assim, pode ser da média.
Atendente: E alguma coisa para beber?
Cliente: Não, obrigado.
Atendente: Deu R$ 19,90. Precisa de troco?
Cliente: Troco pra R$ 50,00.
Atendente: Deseja mais alguma coisa, senhor?
Cliente: Sim, por favor. No lugar da calabresa, pode ser picanha???

19/01/2008

i carry your heart (e.e.cummings)

i carry your heart with me(i carry it in
my heart)i am never without it(anywhere
i go you go,my dear;and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear
no fate(for you are my fate,my sweet)i want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart(i carry it in my heart

02/01/2008

Love letter (Sylvia Plath)

Not easy to state the change you made.
If I'm alive now, then I was dead,
Though, like a stone, unbothered by it,
Staying put according to habit.
You didn't just toe me an inch, no--
Nor leave me to set my small bald eye
Skyward again, without hope, of course,
Of apprehending blueness, or stars.

That wasn't it. I slept, say: a snake
Masked among black rocks as a black rock
In the white hiatus of winter--
Like my neighbors, taking no pleasure
In the million perfectly-chiseled
Cheeks alighting each moment to melt
My cheek of basalt. They turned to tears,
Angels weeping over dull natures,
But didn't convince me. Those tears froze.
Each dead head had a visor of ice.

And I slept on like a bent finger.
The first thing I saw was sheer air
And the locked drops rising in a dew
Limpid as spirits. Many stones lay
Dense and expressionless round about.
I didn't know what to make of it.
I shone, mica-scaled, and unfolded
To pour myself out like a fluid
Among bird feet and the stems of plants.
I wasn't fooled. I knew you at once.

Tree and stone glittered, without shadows.
My finger-length grew lucent as glass.
I started to bud like a March twig:
An arm and a leg, an arm, a leg.
From stone to cloud, so I ascended.
Now I resemble a sort of god
Floating through the air in my soul-shift
Pure as a pane of ice. It's a gift.

21/12/2007

If I could tell you (W.H. Auden)

Time will say nothing but I told you so,
Time only knows the price we have to pay;
If I could tell you I would let you know.

If we should weep when clowns put on their show,
If we should stumble when musicians play,
Time will say nothing but I told you so.

There are no fortunes to be told, although,
Because I love you more than I can say,
If I could tell you I would let you know.

The winds must come from somewhere when they blow,
There must be reasons why the leaves decay;
Time will say nothing but I told you so.

Perhaps the roses really want to grow,
The vision seriously intends to stay;
If I could tell you I would let you know.

Suppose all the lions get up and go,
And all the brooks and soldiers run away;
Will Time say nothing but I told you so?
If I could tell you I would let you know.

18/12/2007

Septo cardíaco

Desenhei uma linha que ia da quina da porta, atravessava o centro da sala, entre os dois sofás, e terminava junto à janela. No lado de cá – o meu – serei soberano; no de lá – o dela – aceitarei a vassalagem.